Oliver Zahm

Country:

France

Position:

Artist/ Purple Magazine

Rio, cidade superexposta

Você não sabe se entra na cidade ou se ela entra em você, se ela o incorpora ou o corporifica, se você pode visualizá-la ou se é ela que o absorve com  sua visão…

Você que chega ao Rio, esqueça todos os clichês e prepare-se para entrar em um roteiro no qual se torna ao mesmo tempo ator e figurante, com inúmeros tipos de pôr-do-sol, riquezas e pobrezas comprimidas como pano de fundo. Pois nada no cenário acontece a não ser quando você está exposto nas praias urbanas, que formam a céu aberto o último estúdio de gravação, de aglomeração e de desaparecimento de si, como se ali estivesse o início e o fim da cidade.

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 Existe um glamour próprio do Rio. Não um glamour hollywoodiano, mas com uma textura cinematográfica completamente diferente: talvez uma forma antiga de glamour, um anti-glamour, porém não nostálgico como poderia ser qualquer destino mundano desaparecido, mas fisicamente onipresente (barulhos, multidões, calores, arquiteturas…).

Estranhamente, às vezes isso preocupa e dá medo.

Sobretudo às populações abastadas do Rio. E a mídia alimenta diariamente a paranóia coletiva (é exatamente assim hoje em qualquer lugar: a política repressiva, a manipulação do medo como instrumento de controle planetário sobre os corpos). Mas aqui no Rio, o medo não é um dado somente negativo: o medo produz a cidade, a empurra, a expele para cada vez mais longe, fora de si, para novas praias, onde ela se projeta nas paredes de vidros dos casarões, como falésias entre o céu e o mar. Mais do que sucumbir à lamentável paranóia em relação à segurança que se propaga nos países do Primeiro Mundo, o Rio sofre de uma espécie de ampla esquizofrenia arquitetônica, em uma cidade cujo território vai desaparecendo dia após dia, se afastando sempre mais por suas extensas praias, passando por cima de suas rochas e de seus obstáculos naturais, onde as favelas se agarram em rios de luzes noturnas ou então derretem na massa solar diurna.

Vamos supor que haja dois tipos de cidades. De um lado, as cidades realistas: Nova Iorque, Tóquio, Sydney ou Hong Kong, por exemplo, cujo princípio de produtividade integrada destrói a cidade para a cidade. Cidades atomizadas, desertas, que você atravessa em grande velocidade e onde não se vive mais do lado de fora, mas na virtualidade da rede. Do outro lado, a cidade-cinema: o Rio e seu Cristo de concreto art déco no cume do granito urbano. O Rio fora dos diagramas consumistas que condicionam a cidade, contaminada pelo tétano do consumo. Um outro roteiro: o da modernidade que renunciou a qualquer hegemonia, a qualquer controle invisível sobre os corpos, a qualquer milagre (mesmo brasileiro). O Rio, cidade anti-realista. Ex-balneário, cuja imanência física volta à tona e faz com que as outras cidades se tornem verdadeiramente “impossíveis”.

Não que o Rio esteja fora do circuito, fora da norma, uma aglomeração cuja economia escapa ao império dos sinais. Mas é que a cidade decidiu não mais acreditar, parar de correr atrás, abandonar, por um tempo pelo menos, a desgastante competição. O Rio tem a cabeça em outro lugar. E se finge participar da ordem mundial, é porque se retirou discretamente das estratégias do poder e da globalização para se limitar à própria desordem, equilibrado pelo único desejo de ser o Rio e nada mais, zombando de São Paulo e do seu sucesso. Uma cidade que não se apóia em nada, em nenhuma força própria, em nenhum modelo para desenvolver uma urbanidade intangível, cujo hedonismo relacional e cujas trajetórias arquitetônicas fundem-se com as forças de Fora, do lugar, da Natureza e dos corpos.

Rio, um resort de verão hollywoodiano em plena expansão nos anos 1950, importou o modelo da Riviera na escala geológica de um continente novo. Foi ultrapassado pelo desejo que encarnava e pela afluência de populações magnetizadas pelo seu Éden. Extensão e histeria; prédios de vidro com vista para outro prédio, o qual esconde agora o mar com seu mármore; proliferação de favelas despencando sobre a cidade como enigmáticas correntes de miséria. Largas avenidas projetadas por Lucio Costa traçando curvas femininas, seguindo um leve orgasmo modernista e cujos jardins, palmeiras, passarelas e ruas paralelas, com seus travestis, representam um gozo urbanístico que permanece intacto. A Modernidade tropical do Rio, alcançada pelo caos contemporâneo, pela guerrilha urbana, a droga e a inflação, pelo turismo sexual e a corrupção política, meio encalhada nas suas grandes praias, não se renegou para se tornar pós-modernidade culpada, fantasmagórica ou moribunda: a física urbana levou a melhor e o corpo do Cristo Redentor, sempre ressuscitado, é seu glamour alado.

Isto porque a Cidade mundial não vale mais nada como tal: ficou banalizada, morta, errante, acelerada, sem identidade, esvaziada de qualquer unidade transcendental (política ou religiosa); é porque a Cidade morreu e que ela é o lugar da Morte onipresente que o Rio resplandece. Diante destas cidades espalhadas, atomizadas, desertadas à noite e ativadas de dia, como aparecimentos turbinados de corpos em movimento, o Rio assume o papel de modelo para um erotismo urbano, para a vitalidade arquitetônica, do tamanho do seu gigantismo e de suas disparidades sociais. Não há fratura social no Rio, a cidade inteira é uma fratura, um corte, uma “esquizo” sem fim entre comunidades ricas e pobres, concreto e rocha, vegetação e luxo, entre as horas do expediente e a praia, entre a noite e o dia.

As praias do Rio são exceções e ainda escapam ao controle mundial do Biopoder. A beleza dos corpos. O glamour das atitudes indolentes das multidões. E é através dos seus milhares de corpos que a cidade libera uma energia anti-realista (se a realidade hoje for de fato o controle do corpo). Por ela, o corpo passa a existir de um outro jeito, a desejar além do conformismo publicitário e do narcisismo de massa, muito tarde noite adentro nas praias super iluminadas. Uma experiência da visibilidade e da exterioridade dos corpos na cidade, que se expõem e se “sex-põem”, desafiando a obscenidade publicitária e o swing generalizado, que caracterizam as relações consumistas em outros lugares. O Rio significa corpos presentes dentro do próprio sistema urbano que não consegue, como em outros lugares, controlá-los, expatriá-los para o campo virtual do consumo. O Rio não é uma cidade digital. Ela luta contra o digital em favor do vegetal e do mineral. Destitui o virtual pelo sensual.

É uma cidade que não separa, não isola completamente o Outro, mas que tece um espaço de interações e de confrontos epidérmicos onde não se procura resolver as oposições ou os conflitos, nem as diferenças, no consenso ilusório da democracia. É uma cidade que desistiu de racionalizar, de enquadrar ou controlar o ser humano – e cuja polícia é paradoxalmente a força menos controlável – para permitir-se não uma pausa ou um recuo, mas uma preferência narcisista e corporal, rejeitando a idéia de espetáculo, de apresentação, para só ficar com o jogo e o risco (a praia, as telenovelas, o futebol, a música, o jogo, a diversão…). Porque a anti-realidade não é a não-realidade. A desmaterialização digital da cidade é a realidade imanente, sensual e imprevisível. É o glamour urbano, que está de novo em jogo no Rio cada vez que você pisa sobre as pedras portuguesas pretas e brancas que formam ondas geométricas sem fim. 

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